O cinema é terra indígena!
Por Janaina Reis
A educação para ser eficaz precisa da partilha, não existe possibilidade de sucesso em educação se não houver em seus agentes um profundo desejo de trocar experiências, conhecer novos mundos, criar e recriar para transformar o mundo à sua volta. Entenda que para qualquer partilha é preciso, sobretudo, diálogo. Seja em palavras, em olhares ou desejos é preciso manter o diálogo vivo, acontecendo entre os atores desse processo. E para o diálogo frutífero e verdadeiro é preciso autonomia, é preciso saber dizer e o que se quer dizer, como nos diz Paulo Freire, é preciso dizer a sua palavra, aquilo que você vive e acredita, não o que querem que você diga.
Nesta verve de uma educação dialógica e emancipadora nasce a oficina LabMais Imagens indígenas, realizada pelo Sesc Guarulhos na aldeia multiétnica Filhos desta Terra, com o projeto pedagógico da Cia Bueiro Aberto. Com a proposta de uma oficina de audiovisual para jovens indígenas, onde seria produzida uma websérie com 4 curtas produzidos pelos estudantes e um filme processo produzido pelos professores. Iniciada em agosto de 2022, no mês que marca o dia internacional dos povos indígenas, e finalizada em outubro de 2022, mês que marca o aniversário da aldeia multiétnica Filhos desta Terra, localizada no bairro do Cabuçu, em Guarulhos.
A proposta do coletivo é um cinema feito na e pela periferia de uma cidade como Guarulhos que é grande, porém, periférica em relação à capital paulista, da qual é vizinha. É um cinema que escava histórias entre os seus, cria registros de memória e fortalece uma cadeia de produções autênticas e necessárias para o debate social. É preciso olhar as periferias, as pessoas, os modos de vida, é preciso também, ouvir as vozes que vêm desses lugares e pessoas e para ouvir é preciso que digam. Desse modo, a oficina surge como um espaço de partilha de processos, tendo como norte a autonomia de seus participantes, liberdade de criação e diálogo.
Composta pelos módulos de pré-produção, produção e pós-produção, os jovens vivenciaram os modos de produção da Cia Bueiro Aberto e o coletivo vivenciou os modos de produção da aldeia multiétnica Filhos desta Terra. Muitas vezes foi necessário olhar, refletir e recalcular a rota, com muita sabedoria e paciência. Sabemos que em uma produção é fundamental planejar, prever, calcular, mas nem sempre o tempo de um processo é o tempo do relógio e isso é um saber trocado ao longo da oficina, poder refletir sobre a ideia do tempo e suas aplicações na produção cinematográfica.
Outro conceito vivenciado foi o de coletivo. Os grupos seriam separados e cada um faria um filme, mas essa ideia não fazia sentido ali, então fomos por outro caminho, e ali é que encontramos o coletivo. Todos juntos já eram um grupo, não cabia a ideia de separar e criar subgrupos, então todos tiveram voz e vez em todos os curtas, aqui diferente da Cia Bueiro Aberto e tantos outros parceiros, os jovens não buscaram um cinema de um diretor ou diretora, eles buscaram o cinema coletivo, de fato, em que todos são autores sem hierarquias.
Para criar é preciso autonomia e liberdade. Durante todo o processo os encontros foram de orientação e prática para que pudesse ao final contar as histórias daquela reserva. Desde o roteiro até a edição os jovens tomaram as decisões, de modo que cada professor era ali um mediador do processo, trazendo um conhecimento técnico, que é próprio da linguagem audiovisual, mas ouvindo e facilitando o processo de criação das obras. Evidente que ao longo do processo muitas discussões ocorreram, divergências, o que fez com que os debates se aquecessem e gerassem frutos que lá na frente foram essenciais para as criações. O debate respeitoso e a divergência inteligente são sempre salutares e parte essencial de qualquer processo. Com muita vontade e segurança os jovens se dedicaram à oficina, era um desejo antigo que se realizava o de poder aprofundar os conhecimentos em audiovisual. Essa entrega foi fundamental, tornou os encontros prazerosos e a cada vez eram mais instigados a olhar para as diversas possibilidades criativas que o cinema nos dá.
O resultado dessa vivência foi um crescimento profundo de seus participantes, uma parte disso pode ser observada nos curtas produzidos. As histórias contadas a partir de suas vivências e histórias, contadas pelo sujeito que as vive e não por um olhar estranho. A beleza e precisão da fotografia em contar as histórias em imagens e a cultura presente em todos os filmes, nos cantos, nos ritos e nos artefatos, diante de nós na imagem em movimento nos mostrando que o cinema é terra indígena.
Por fim, as exibições foram a coroação desses meses de trabalho, o mundo não será mais o mesmo, agora nele tem essas histórias vividas, contadas e registradas por quem de direito. De uma experiência como esta não se pode sair o mesmo de quando entrou, e essa é a educação que queremos, a educação que transforma.
Assista os filmes aqui:
https://youtube.com/playlist?list=PLwSnRhJpXeCDUdw5jGanoxK8XkCh25COq&si=ygrGGbaMQb_iIwSY
