sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Impressões sobre a Sétima Mostra Guarulhense de Cinema – parte 2 - Por Janaina Reis


 Já falei algumas vezes da relação cinema e literatura, outros companheiros também falaram disso por aqui. Retomo o tema, para iniciar este texto, e para falar da obra de Moisés Pantolfi. “Um Artista da Fome" é um mergulho na alma de Kafka, Moisés é um excelente desenhista, premiado cineasta, e creio que em suas linhas também lemos grandes autores. A cada animação baseada em alguma história da literatura,  de suas linhas emergem a essência das personagens e isso é como um mergulho na alma do escritor. Vivemos tempos de espetacularização da miséria e da morte e isso está presente no artista da fome de  Kafka e de Pantolfi, cada um em seu lugar, em seu tempo. 

Os filmes de oficina, já disse isso também, vieram com muito a dizer. “Reticências” me tocou em lugares que nem sei por onde começar. A história é muito bem contada, simples e dramático. Quantas de nós não estiveram nessa situação? Bingo! É certa a empatia que causará no público. As atrizes tem uma relação muito natural de amizade e cumplicidade durante as chamadas de vídeo. Além disso, a música da banda Carbônica foi muito bem escolhida para trilha. 

O Pimentas tá com tudo, além das oficinas do Kinoférico, trouxe também a Cia do Caminho Velho. “Ela escondida em seu próprio quarto” traz uma interpretação visceral de Fabiana Barbosa, simples, precisa e intensa, resolve tudo com o olhar,  entonação da voz e gestos pequenos dentro de um curto espaço. O texto é também brilhante e a penumbra proposta pela fotografia é a cereja do bolo pra nos deixar presos naquele delírio. 

“Em Potencial" é um nanometragem. Narrativa breve, potente, é para tirar do lugar comum. 



A Produtora Embrião explorou uma linguagem com efeitos e fantasia em “Três Pessoas e uma Enxada”, interessante a marca lúdica que aparece nesta e em outras obras presentes na mostra, o que evidencia que quando a realidade é difícil de suportar tendemos a criar universos com outras possibilidades, por isso somos também contadores de histórias, por ter o olhar encantado sobre o mundo. 

Os documentários da noite, “Narrativas às margens da Arena" e “Ao mestre com samba – Osvaldinho da Cuíca" revelaram histórias reais de artistas imprescindíveis. Um abriu as cortinas do teatro paulista e o outro uma grande roda de samba. Destaco aqui que no segundo, temos o uso de entrevistas por aplicativos de chamada de vídeo, o que se tornou comum na pandemia, o que mostra que essa prática também refletiu de certa forma nas produções audiovisuais. 

“Os efeitos do raio gama nas margaridas do campo" é um filme gravado com celular, cada um na sua casa, a própria edição traz filtros de cor que lembram os filtros de redes sociais. Genial produção de Rubens Mello, combina muito bem essa estética de um filme feito com celular e a relação do ser humano com a tecnologia, radiações, tudo que nos afeta e atravessa nesse mundo tóxico, sem perder a poesia habitual na metáfora do humano como margaridas no campo. 

Desafiando a narrativa temos “Sentido” que nos deixa livre para escolher por onde queremos seguir. É um importante experimento narrativo. Aliás,  experimento é uma palavra interessante para esta noite. 

Retomando a ideia de ludicidade chegamos em Sombra e Fúria - Puck, fechando a noite de exibições, trouxe a leveza da comicidade de Shakespeare para o cinema. A arte deu um tom farsesco à produção e transformou a internet no bosque encantado de Titânia e Oberon. Eu assisti cinema pensando que era teatro, ri das trapalhadas do Puck, dos casais trocados, e do tom de  brincadeira que a obra carrega. Mas, também acho que eu ri porque no fim é isso que somos, brincantes. 

O debate foi quente, muitas questões importantes, com tantas informações recebidas não teria como ser diferente. Queremos trocar, falar, essa é a graça, assim aprendemos. E ainda tem mais uma noite, você que lê não perca, vá ver/viver! 


Impressões sobre a Sétima Mostra Guarulhense de Cinema – parte 1 - Por Janaina Reis


 Chegou a nossa queridinha! E eu vou arriscar uma resenha sobre esses dias tão especiais que compartilhamos. Posso dizer que no primeiro dia, a ansiedade era tão grande, que parecia que era a nossa primeira vez. Mas,  pensando bem... até que pode ser mesmo. Quase dois anos nos separaram da sala de exibição lotada, dos rostos amigos, abraços e debates profundos. Dois anos com medo imenso da morte, da fome, da dor. Estar ali naquela primeira noite ao lado dos nossos era mais do que uma exibição, era uma vitória! E celebramos! Em nome de tantos que não tiveram a mesma chance, em nome de tantas pessoas que nos fazem falta. Cinema é sobre afeto. 

De cara eu fui à Bahia, tanto tempo sem viajar, eu entrei numa Kombi e fui com Leandro Almeida viajar em sua filosofia, “Um Filósofo na Quebrada”. Esse documentário traz uma questão interessante, Daniel soube amarrar tão bem a presença de Leandro, que este sai do lugar de personagem e se confunde com a figura do autor, ele narra sua própria história em voz e imagens captadas por ele mesmo ao longo de sua aventura pelo Brasil. 

No retorno eu volto pelo Pimentas, desembarco na terra do Coletivo Kinoférico, sacudindo a nossa cabeça “Durante o Banho" mostra que os filmes de oficina estão com muito a dizer, e nos presenteiam com um pulsante relato de um jovem e seus conflitos pandêmicos, destaque para as transições na edição que nos levam de uma angústia à outra da personagem mantendo a cadência do filme. 

E já que estou em Guarulhos, não pude deixar de ver a maldade que assola essa terra. O cortante documentário “Os Invisibilizados Relatos da luta dos trabalhadores” é um grito contra os desmandos dos coronéis. Trouxe todos os presentes para a pauta da PROGUARU, como não podia deixar de ser, filme de educação popular é isso, provoca, instiga, dialoga. 

Mas agora me vejo diante de um impasse: Apocalypse Clown. O filme é meu, não sou capaz de opinar, prefiro resolver um mistério, “O Mistério das Musas de Eçaraia" é um belo e bem narrado suspense, quero ver mais dessa galera na próxima mostra. Creio que já me alonguei com esse texto, é  preciso correr, “Run", rápido e de tirar o fôlego, fotografia e edição  muito bem executadas. 

Por fim, o novo, o “Neo-Brazyl", um filme de Nelson Simplício. O filme é dele, é ele. A inquietação, a busca de Nelson como cineasta estão ali, e ganhamos um filme que destrói a nossa mente, no melhor sentido claro. Cores saturadas, tecnologia presente todo o tempo, aplicativos, um futuro distópico, que me lembrou Blade Runner, Ghost in the shell... tudo isso na terra brasilis, ganhou aquele toque de uberização, e  temos este belo cyber punk. Destaque para a edição precisa de Nelson, a trilha sonora marcante e direção de arte que construiu um universo de cores e luzes fantástico. O curta fechou a primeira noite de exibição presencial, que apresentou um panorama diverso de produções, reuniu os produtores locais e mais uma vez fomentou o debate acerca do nosso fazer. 


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

ZINE GUETO METRAGEM VOLTA EM 2022

No final do mês de Outubro de 2022, o Zine Gueto-Metragem, um periódico de cinema periférico organizado pelo Coletivo Companhia Bueiro Aberto, fez o último lançamento do ano. Buscando debater “cinema e política”, as colunas trouxeram reflexões sobre os dilemas artísticos-políticos de alguns coletivos periféricos, bem como a história do cinema na front da revolução. 



Nosso desejo de fazer cinema, mas também de refletir, pesquisar, escrever, se tornou uma realidade sólida. Com 11 edições, incluindo 5 em 2020, reunimos mais de 70 textos debatendo e aprendendo com diversos coletivos, a navegar pelas estórias de um novo cinema.


Esse ano, além dos colunistas do nosso coletivo, Janaina Reis, Daniel Neves e Renato Queiroz, contamos também com convidados como a parceira Pâmela Regina, do Cineclube Incinerante, que fez a mediação dos debates de lançamento, o mestrão Daniel Fagundes, nossa referência no cinema de quebrada. Aliás, fizemos uma edição especial do Coletivo de Vídeo Popular, articulação de coletivos com 15 anos de caminhada, na qual escreveram colunas, além de Fagundes, o antropólogo Guilhermo Aderaldo e a cineasta-pesquisadora Fernanda Vargas. Lincoln Péricles, direto do capão, escreveu sobre seu cinema de mutirão em edição sobre cinema experimental.  Contamos também com a presença da socióloga Marina Soler, professora da UNIFESP e colunista constante. A presença de diversos nomes do cinema periférico cria um espaço de debate e criação.


O gênero textual do zine vem se modificando, ou talvez se consolidando. Embora tenhamos trabalhado com textos dissertativos e acadêmicos, algo que consideramos essencial no nosso processo, estamos explorando as formas literárias, conto, poesia, relatos, abrindo para a construção de narrativas, contação de estórias de processos de criação.


Exibimos cinco filmes e trouxemos os realizadores para um debate, de São Paulo a Pernambuco, fazendo o intercâmbio entre coletivos. Todos os cinedebates podem ser encontrados no canal Companhia Bueiro Aberto.



Em suas 11 edições, o zine foi financiado pelo PROAC, com exceção de apenas 1 edição, em editais da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Tentamos novamente um edital, mas infelizmente não conseguimos. Bem sabemos como as políticas culturais ainda são deficitárias. Porém, voltaremos em 2022, nem que seja para fazer de maneira independente, como é o nosso cinema. 


Viva os cinemas periféricos! Uma câmera na cabeça e uma ideia nas mãos!


sábado, 26 de junho de 2021

Fim de semana histórico para o vídeo popular

     A partir dos anos 2000, iniciou-se um processo de ampliação das produções audiovisuais nas periferias. Parece que o povo, aquele tão aclamado com sua imagem na tela pelo Cinema Novo e por Central do Brasil e Cidade de Deus, não estava apenas como personagem de uma estória, mas a criando atrás das câmeras.  Entre mostras, cursos, pesquisas acadêmicas, articulações começam a surgir denominações conflituosos: cinema de periferia, cinema de quebrada, cinema de favela, cinema de comunidade.

            Muitas vezes o incômodo dessas denominações vinha pelo fato dela virem de uma catalogação externa, não nascida dos coletivos que se formaram, embora houvesse entre os grupos a discussão e criação destes termos. Na segunda metade dos anos 2000, diversos coletivos da periferia de São Paulo se juntam e formam o Coletivo de Vídeo Popular. Eles se denominam assim porque o vídeo é um suporte diferente da película cinematográfica, mas também porque vídeo popular busca não banalizar uma produção que se fazia bem diferente daquele dito “cinema”, com todas as precariedades e desigualdades do mercado audiovisual e com uma mensagem e abordagem questionadora. Além disso, vídeo remete a Associação brasileira de Vídeo Popular (ABVP), que nos anos 80 articulou e produziu obras em torno dos movimentos sociais, principalmente o movimento sindical.

            O Coletivo de Vídeo Popular criou o Circuito de Exibição nas quebradas e em diversos espaços da cidade, a Revista de Vídeo Popular, organizou discussões, cobrou políticas públicas, questionou uma representatividade superficial da periferia e a própria ideia de periferia. Isso se deu a partir de 2008 e com o passar dos anos, ao mesmo tempo que ganhou força, o Coletivo diminuiu o ritmo. Mas nos últimos tempos começa a se desenvolver uma rearticulação, a princípio, com o diálogo maior entre os coletivos, mas com a perspectiva de se firmar um grupo orgânico.

            Esse final de semana é um marco nessas discussões. No dia de hoje, nós, do Zine Gueto metragem e da Companhia Bueiro Aberto, trazemos uma edição especial com a trajetória e perspectiva do Coletivo de Vídeo popular, contando com colunistas que participaram desse corre, como Daniel Fagundes, Fernanda Vargas, Guillhermo Aderaldo e entrevista com Flávio Fabcine. O lançamento ocorre no canal da Companhia Bueiro Aberto com exibição do filme Oxente Bixiga, um mergulho na migração nordestina no bairro do Bixiga, São Paulo, e debate com os diretores Daniel Fagundes e Fernanda Vargas. Confira a edição aqui no blog e o debate no nosso canal: https://www.youtube.com/watch?v=q4uz79-Qytg

            E no domingo outro evento que marca essas ações que reúnem coletivos e ideias, o lançamento do streaming da Videoteca Popular, projeto do Caramuja, pesquisa e memória audiovisual, que reunirá filmes periféricos, cursos, debates, material para edição, exposições. A Videoteca é um projeto antigo, da época do CVP, e sempre foi um espaço importante para os coletivos. Breve também estaremos colando com nossos filmes.

            Mensagem do evento da Videoteca.

É com enorme alegria que anunciamos a festa online de lançamento da nossa histórica Videoteca Popular, que nesse ano completa 14 anos de dedicação a preservação da memória do cinema nacional e do audiovisual periférico.

Depois de tanto tempo entre DVDs, VHS e exibindo nas vielas, campos e escadões das quebradas de São Paulo, também no fomento ao canal do Youtube com preciosas lives com grandes expoentes do nosso cinema, chegamos enfim a concretização do nosso portal, que além de um streaming recheado de grandes filmes de diferentes épocas da produção audiovisual popular teremos a apresentação de todas as ferramentas da plataforma, que oferecerá além de um grande catálogo de filmes gratuitos e abertos, um serviço de suporte à coletivos e produtores autônomos, oferecendo banco de áudio, banco de imagens e artigos de referência. O site terá ainda uma galeria de artes periféricas e um nascedouro de filmes, onde qualquer pessoa de forma prática e rápida pode contribuir com a realização de novas obras dos coletivos e cineastas das quebradas.

Para celebrar tanta coisa bacana o cineclube da VP é especial, com duas sessões. Em uma delas celebramos as raízes da produção de vídeo popular com a exibição de um curta doc raro da ABVP "Quilombo da Memória" sobre a capoeira e a resistência negra nas bordas da sul com a Corrente Libertadora, filme dirigido pelo músico e historiador Salloma Salomão. Para prosear sobre contaremos com as presenças do próprio Salloma e do mestre de capoeira e cultura popular Eufra Modesto, um dos fundadores da Corrente Libertadora. Contaremos ainda com uma participação especial do cineasta Joelzito Araújo falando sobre a importância da ABVP na história do cinema brasileiro.

Em seguida exibiremos o longa doc "Dentro da minha pele", de Toni Venturi e Val Gomes onde nove pessoas comuns, com diferentes tons de pele negra, apresentam seu cotidiano na cidade de São Paulo e compartilham situações de racismo, dos velados aos mais explícitos. Em seguida uma prosa boa com os diretores.

Se eu fosse você não perdia, dia 27/06 as 17hs no youtube da Videoteca Popular.

Bora?

Relização: VP / Caramuja/ Fibra 10

Apoio: VAI TEC

quarta-feira, 19 de maio de 2021

7ª Edição do Zine Gueto Metragem está no ar

 Atenção cinéfilos de plantão, amantes da sétima arte, vamo que vamo, leke! novidade pa nóis , a nova edição do zine tá disponível para acesso livre de todos no planeta e fora dele!

Confira aqui no blog, abalando a estrutura da globalização cinematográfica, vamo trocar umas ideia doida sobre cinema EX-PE-RI-MENTAL. Se liga só, de Sganzerla a Lincoln Péricles.

O lançamento bombástico dropado via satélite diretamente do planeta Companhia Bueiro Aberto ocorreu dia 25 de abril e define: ARTE MODERNA,NÃO PASSA DE LIXO! Será?

Exibição do Filme de Domingo, debate com o diretor Lincoln Péricles e o ator Adriano Araújo com mediação de Pâmela Regina.

Levanta a bunda da cadeira e corre pro nosso canal, quem tiver de sapato não sobra!

Link da edição 7: https://drive.google.com/file/d/1HihjS_DQjwvH5eNWIktYLrNAjnkvaluM/view



sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Participação feminina na VI Mostra Guarulhense de Cinema

POR JANAINA REIS

A Mostra Guarulhense de Cinema é um importante panorama do cinema independente em Guarulhos, esse ano ela chegou a edição de número 6, por seu caráter anual podemos dizer que são seis anos de mostra! Manter uma produção desse porte de forma independente é uma tarefa árdua que as pessoas que fazem parte desse evento tem cumprido com êxito, a cada ano temos novas produções, novos formatos e muitas reflexões.

(Fotos por Marina Pinto)

O número de produções saltou aos olhos nesta edição, 39 filmes entre curtas de diversos gêneros e um longa metragem de ficção. A pandemia  que parecia acabar com o sonho do cinema, aqueceu o cinema guarulhense dando-lhe novas caras e um novo formato para o seu principal evento, que além de 39 filmes, trouxe mesas de debate sobre cinema e lançamento da sexta edição do Zine Gueto Metragem. É nós somos difíceis de  derrubar! Mas, uma outra coisa saltou aos olhos nessa mostra, algo que é muito discutido por aí: a participação das mulheres no cinema. Eita! Senta que lá vem história...

As mulheres são historicamente lembradas no cinema como atrizes, como sex symbol, como aquela atriz casada com aquele diretor, como a donzela do filme que morre pra dar motivação pro herói. Dificilmente são lembradas como cineastas.  Algumas pesquisas apontam porém, que o cinema foi uma invenção feminina. É... aquela história do Meliés e do Viagem à Lua já foi contestada,  Alice Guy Blaché já tinha feito um filme de ficção seis anos  antes dele chamado A Fada com Repolhos, La Fée Aux Choux.

Acontece que o cinema virou atividade industrial então as mulheres que antes dominavam a produção cinematográfica foram depostas pelos homens, é o machismo varrendo mulheres brilhantes para debaixo do tapete e transformando as que sobraram em produtos vendáveis.

No Brasil, mesmo o cinema novo com todo seu caráter revolucionário, tem apenas uma mulher com uma produção considerada significativa, a cineasta Helena Solberg.

Nos últimos anos Hollywood escandalizou o mundo com inúmeras histórias de assédio sexual sofrida por profissionais mulheres. No Brasil não foi diferente, e os relatos foram desde grandes produções cinematográficas, televisivas até festivais.

Contudo, apesar de tantos debates em torno do assunto, as coisas não mudaram muito, continuam assediando as mulheres e a  produção cinematográfica assinada por mulheres ainda é tímida, o que não tem timidez é o machismo e o preconceito.  

Mas aqui, na segunda cidade mais populosa do estado de São Paulo, parece que as coisas são diferentes. Esse ano dos 39 filmes apresentados na VI Mostra Guarulhense de Cinema, 16+1 são dirigidos ou orientados por mulheres. São elas:

Angel Black (Nós das Ruas), Janaina Reis ( Nós das Ruas, Minha Vida em Quarentena, A Roda das Histórias, Cartas de um Poeta), Letícia Alves (Ruptura), May Alves (Tô Indo, Novo Normal), Ingrid Novak e Fernanda Campos (Dias de Glória), Fabiana Barbosa (Escravidão 2.0), BrumaBruna (_ Vermelho), Juliana Seabra (6 almas), Pâmela Regina (A Caixa Misteriosa), Reiko Otake (Nuvem Baixa e Impróprios), Pamy Rodrigues (Pelas Tuas Mãos), Isa Molica (Elos, as Teias), Fernanda Carvalho (Eu).

Além disso, as produções contam com mulheres na equipe e algumas histórias tem mulheres como protagonistas. No zine Gueto-Metragem tivemos três mulheres colunistas em uma equipe de 6 pessoas  nessa edição eu Janaina Reis, Pâmela Regina e Marina Soler. Na própria organização  da mostra a participação feminina aumentou, nessa edição somaram as manas Pâmela Regina, Lucimar Araújo, Cinthia Nicácio Manocchi Murata e Fernanda Campos, em uma equipe com 9 pessoas. E até no jornalismo quem defendeu a divulgação da mostra nos jornais foram Carla Maio e Thalita Monte Santo. 

O cinema guarulhense não é “eu" é “nós” disse isso na live de abertura da mostra, o cinema independente em Guarulhos é coletivo, ele se move pela força  do todo e qualquer pessoa é bem vinda. Lendo o artigo do camarada  Renato Queiroz aqui no blog vi que ele cunhou um termo interessante “cinema nosso", gostei e vou usar.

O cinema nosso é então um cinema que naturalmente rompe paradigmas, estamos na contra mão porque a mão desse mundo como está  não nos interessa, nem representa, logo, para nós é natural ver mulheres, homens, enfim,  pessoas onde elas quiserem, contando suas próprias histórias. E que venham mais!

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Mostra Guarulhense de Cinema 2020 faz história

 Cinema Nosso como síntese de múltiplas determinações.

Por Renato Queiroz

No nosso trabalho Netfake há um personagem, um cineasta gourmet, Jacan Luc Godard, que define profeticamente que Guarulhos nunca terá cinema real porque é uma cidade que fede, com um povo desprezível e sem cultura e que o nosso cinema é pobre e sem complexidade técnica. Evidentemente trata-se de uma caricatura que traça um corte entre o que é o elitismo cultural e a criação autêntica de um Cinema Nacional e Popular, para resgatar um termo que aparece nos debates do Cinema Novo.


Em uma das edições do Zine Gueto Metragem eu escrevi um texto que relembrava a canção de Caetano dizendo que escrever é preciso, filmar não é preciso. Aí eu apontava que era necessário que escrevêssemos sobre o que produzíamos e também escrever sobre o que assistíamos, sejam clássicos, filmes da grande indústria, cinema independente, filmes em sua diversidade. Defendi isso exatamente porque a grande ideia, acredito, seja a possibilidade de encontrarmos uma muito saudável multiplicidade de cinemas no meio do caminho. Síntese de múltiplas determinações.
Nós, a molecada de Guarulhos que ousou fazer cinema numa cidade sem políticas públicas e editais, criamos a possibilidade de escrever roteiros, de produzir, estudamos fotografia, iluminação, narrativa, atuação e finalmente, seja da maneira que for, encontramos os meios para realizar parte da pós produção, a edição e a montagem ao menos.
Encontramos, no entanto, dificuldades para distribuir os filmes, para acessar os espaços de circulação cultural e comercial do nosso trabalho, de se profissionalizar no sentido de gerar possibilidades de trazer o pão para nossa mesa mediante aquilo que sabemos e queremos fazer. Um caminho de resistência é oferecido pela companheirada do Cineclube Incinerante que do zero e sem apoio da prefeitura, a não ser quando esta queria receber algum reconhecimento sem o devido esforço, criou a belíssima Mostra Guarulhense de Cinema, que chega a sua VI Edição com uma diversidade enorme de produções, de produtores, de gêneros. Um panorama que, a cada dia mais, nos dá algum otimismo e coragem para continuar.
Para além disso, há também, hoje, um esboço mais bem elaborado de uma crítica do que gosto de chamar de Cinema Nosso, há uma variedade de mídias que debatem o Cinema da cidade, desde podcasts, trabalhos acadêmicos, canais no youtube, jornais, zine, revista, muita coisa que aponta destaques e impressões sobre essa cena. O nosso isolamento, enquanto exclusivamente “objetos de estudo”, está sendo rompido, passo a passo, e vê-se nascente uma crítica de nossa cena que também nos ajuda a entender essa multiplicidade.
Nesta VI Mostra, me alegrou muito poder entregar um documentário mais social, “ Nós das Ruas”; um mais cultural, “Um Dia de Várzea” – revisitando também o tema do futebol que gosto muito; uma ficção de suspense, “O Sentido da Morte”; e uma de comédia, “Netfake”, gênero o qual sempre flertei, mas ainda não tinha arriscado e creio que, em certa medida, tenha funcionado bem. Comédia que também foi explorada no filme “Minha vida em quarentena”, de Janaína Reis.
Falando nisso, me emocionaram bastante os documentários “Cartas de um Poeta” e “Roda das Histórias”, ambos filmes sensíveis, poéticos, voltados para a criação de narrações, seja por via caligráfica e mais solitária, como a do senhor Francisco Grosso e suas epístolas tão particulares, ou falada e coletiva como as histórias fortes e marcantes compartilhadas por aquele grupo de mulheres. A visão cinematográfica que congrega e busca similaridades nas suas linguagens também fica por conta da camaradíssima Janaína Reis.
“Tupinambá Subiu a Serra” é um filme social, com uma temática atual e que traz em voga um debate necessário e urgente sobre demarcação das terras indígenas, sobre a necessidade de uma convivência social que respeite a pluralidade e as particularidades dos povos indígenas dentro de sua compreensão de si mesmo. Mariátegui talvez nunca tenha sido tão atual, ainda mais depois da vitória popular na Bolívia e do desastre que é o governo brasileiro em diversos aspectos, e esse é mais um deles.
O grande filme da mostra, posso dizer, foi “Para Miguel, com Amor”, de Daniel Neves, o primeiro longa -metragem de ficção da Companhia Bueiro Aberto, um filme que assume tons épicos por vezes, mas singelo por outras, que fala de amor e de contradições do dia a dia, como vício em remédios ou fazer um trabalho de escola, mas que no final das contas acaba por ser um filme sobre o amor aos livros, sobre a luta pela educação pública no Brasil, sobre as contradições da falsa democracia conquistada na constituinte de 88, fala de contradições familiares profundas, sobre desilusão e recuperação da esperança.
Fiquei impressionado com a qualidade técnica de alguns filmes, como a fotografia e a captação de áudio do filme “O Auxílio” de Rafael dos Anjos, com uma narrativa divertida e interessante e a boa atuação do parceiro Thom Oliveira, também da Bueiro; o trabalho dos camaradas do coletivo Kinoférico com ótimos roteiros, montagem e atuação no filme “Dias de Glória” de Ingrid Novak e Fernanda Campos, que me lembrou o estilo de Spike Lee, ainda mais com aquele final apresentando dados da violência policial no Brasil, que foi talvez o ponto alto para mim como espectador, e “Ruptura”, com atuação infantil, o que é sempre um desafio, e que foi muito bem trabalhada, e discutindo um tema relevante sobre questões familiares.
Não quero me alongar em listas, pois minha memória faz com que eu corra o risco de ser injusto, então rapidamente cito o trabalho bastante experimental e sempre relevante de Moisés Pantolfi, com seu “Atual Auto – Retrato” e “Análise do Modelo Articulado”; André Okuma com participação em alguns trabalhos e “Nuvem Baixa”; o Cinema incômodo e necessário de Rubens Melo com “Sinfonia para o Vampiro” e “Coroa da Morte” ; a genial Juliana Seabra, que está na ficção científica “Escravidão 2.0”, de Fabiana Barbosa.
Todas essas múltiplas determinações formam o que hoje estamos ousando chamar de Cinema Guarulhense, o que me parece muito interessante como identificação regional e como ponto de convergência, que nos permita nos compreendermos enquanto categoria, artística e profissional, e assim alçarmos novas conquistas que começam a se desenhar de forma mais elaborada com os passos que estamos dando juntos, passos no sentido da profissionalização, da ampliação da distribuição, da ocupação dos circuitos dos festivais, de políticas públicas e da mais ampla garantia de liberdade criativa.
Um Grande Abraço e vida longa ao Cinema Nosso!